Vida Eterna

"Com a minha missão já próxima, minha querida e velha cidade, meu querido e velho povo, tudo abandono agora, partindo para proteger este país; para preservar a nossa eterna e justa causa, vou agora avançar. O meu corpo sucumbirá como uma flor de cerejeira, mas a minha alma viverá e protegerá esta terra para sempre. Adeus. Sou uma gloriosa flor de cerejeira selvagem. Hei-de regressar à terra de minha mãe, e florescer!" — piloto Kamikaze que no dia seguinte a proferir estas palavras morreu ao atirar o seu avião contra um contra-torpedeiro americano.

Se a nossa existência acabar num ponto, ela deixe de ter sentido. A vida só vale alguma coisa se for vivida. Os prazeres que retiramos da vida, e mesmo as memórias dos acontecimentos passados, desvaneceriam abruptamente se morrermos. É então necessário evitar a morte individual a todo o custo. Prolongar a vida até ao infinito. A ideia da imortalidade é uma das bases do transhumanismo. Nós falamos bastante a sério quando dizemos que queremos viver para sempre.

Obviamente que todos vamos morrer; este objectivo que é a imortalidade está indubitavelmente, e até algo infantilmente, condenada ao fracasso. Por muito pequenas que sejam as probabilidades de morrer num dado instante, num tempo infinito a probabilidade de morrer é sempre 100%. Então como se pode desejar a imortalidade? Nós podemos, e devemos, prolongar a vida até ao seu extremo, até ao máximo que conseguirmos. Apesar de condenado ao fracasso, o nosso objectivo é o único possível para obtermos o máximo da vida.

A principal causa de morte no nosso país é, directa ou indirectamente, o envelhecimento. Daí que seja prioridade máxima acabar com o envelhecimento — ou torná-lo opcional, já que nenhum transhumanista pretende impor a sua vontade a outrem. Para mais acerca deste assunto, ver Combatendo o Envelhecimento e Póster Sobre o Envelhecimento.

Existe ainda outra hipótese para "enganar a morte" que não envolve acabar com o envelhecimento antes de nós morrermos. Trata-se da criopreservação ou "cryonics" — que é criopreservação aplicada a organismos mortos, pode-se traduzir por "criogenia". O que acontece é que assim que uma pessoa morre, ela é congelada e conservada até ao tempo em que possa ser reanimada — tempo esse no qual, presumivelmente, já não existe envelhecimento. Este processo tem, no entanto, algumas falhas; quando nós somos congelados, danos substanciais são infligidos às nossas células, o que significa que quando formos descongelados vamos ter de ser reparados. Partindo do princípio que no futuro existirão as tecnologias para nos reparar — algo perfeitamente possível —, existe ainda um grave problema. Algumas — bastantes, de acordo com pesquisas recentes — das nossas células nervosas vão ser destruídas, o que significa que mesmo "implantando" novas células — possivelmente clones de outras células nossas —, "nós" já não seremos "nós". Existem então muitos argumentos para demonstrar se "nós" seremos "nós" ou não, deixo a decisão ao critério do leitor. O que apenas falta referir é que alguém que morra hoje só tem uma hipótese de poder viver amanhã, e essa hipótese chama-se "cryonics". Por isso é que muitos transhumanistas estão inscritos em empresas do ramo para quando morrerem serem congelados — custa aproximadamente entre 10 e 30 mil contos, dependendo de só se querer congelar a cabeça ou se se quiser congelar o corpo também. Não existe nenhum programa do género em Portugal e eu, pessoalmente não acredito que possa funcionar.

Apesar de a possibilidade de sermos fisicamente imortais ser ainda um sonho, o futuro é construído com sonhos e como é comum um transhumanista afirmar:

"Viverei para sempre ou morrerei tentando."

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